A implantação da nova doutrina sucedeu, graças à rápida difusão desses
fenômenos, nos cinco continentes, terem despertado o interesse de numerosos
sábios em estudar sua veracidade, suas implicações científicas e filosóficas
e muitos, desejosos de desmascararem o que presumiam ser uma grande
e absurda impostura.
Para que o leitor possa ter uma idéia dos acontecimentos daquela época,
de que participaram ativamente milhões de pessoas de todos os níveis:
social, político, econômico, religioso e intelectual, faremos alguns
apontamentos que esperamos retratem, embora palidamente, esse momento
histórico.
Em 8 de maio de 1852, publicou-se, em New York, o primeiro periódico
espírita: o "Spiritual Telegraph". Em 1853, já existiam nos Estados
Unidos centenas de publicações de diferentes orientações, algumas com
edições de mais de dez mil exemplares.
Foi, também, na mesma NY que se constituiu a primeira sociedade espírita,
em 10 de junho de 1854, da qual faziam parte, entre outros ilustres
personagens, o Juiz da Suprema Corte daquele Estado, John W. Edmonds,
e o Governador Tallmadge, de Wisconsin. Essa sociedade foi a responsável
pela edição do jornal "The Christian Spiritualist".
Em 1855, artigo publicado no "Modern Spiritualism" refere que em NY
o fenômeno espírita havia deixado de ser uma curiosidade ou maravilha
e se tornado uma coisa reconhecida em toda a cidade e que as sessões
públicas eram freqüentes. Merece especial menção Emma Hardinge, médium
escritora, oradora e grande divulgadora do Neo-Espiritualismo (termo
usado por muitos para designar a doutrina posteriormente chamada Espiritismo)
e que escreveu dois livros narrando os acontecimentos que fizeram a
História do Espiritismo: "Modern American Spiritualism" e "Nineteenth
Century Miracles", onde a autora aborda um grande número de casos ocorridos
durante esse período.
O sectarismo religioso e os interesses contrariados originaram movimento
antagônico que se caracterizou por perseguições e condenações infelizes.
Muitos perderam o emprego ou foram apontados na rua como loucos (em
evidente processo de desmoralização) ou acusados de fraudadores e aproveitadores
da crendice popular ou menosprezados, vilipendiados, perseguidos e impedidos
do direito de se reunirem. Negociantes e profissionais eram obrigados
a negarem suas convicções, para não serem arruinados pela discriminação.
A imprensa e as religiões atacavam sem qualquer escrúpulo os prosélitos
da nova revelação. Os locais onde se reuniam os neo-espiritualistas
eram atacados a berros e assobios e quebras de vidraças, numa dolorosa
demonstração de fanatismo e intolerância religiosa.
Entretanto nada impedia a difusão dessas idéias, que prosseguiam demonstrando
a possibilidade da comunicação com os "chamados mortos", que se mostravam
" realmente vivos".
As "conversas" com as mesas girantes e falantes disseminaram-se por
todas as nações do Velho Mundo.
Na França, tornou-se uma mania social. A curiosa diversão se fazia presente
em todas as reuniões sociais. O jornal "L'Illustration", de 14 de maio
de 1853, transcreve artigo de Jules Janin, literato francês, cognominado
"o príncipe dos críticos", onde inicia dizendo: "A Europa inteira, que
digo eu: a Europa? Neste momento o mundo todo tem a cabeça transtornada
por um experiência que consiste em fazer uma mesa girar. Em todas as
partes se ouve falar na mesa que gira". O mesmo periódico retratando
acontecimentos sociais da época, apresenta uma ilustração que mostra
um belo salão onde dezenas de senhores e senhoras, em trajes de gala,
estão ao redor de três mesas (algumas pessoas com as mãos sobre elas)
e, com certeza, conversavam com os espíritos.
Os jornais noticiavam e polemizavam sobre o assunto. Caricaturas apresentavam
as mesas girantes participando do cotidiano dos europeus.
As charges eram críticas, algumas, como aquela que apresentava três
membros do Instituto (referência à Sociedade de Ciências de Paris) conversando
e um deles diz: -"Estas histórias que por aí contam estão interessando
a muita gente honrada. Quanto a mim, prefiro não crer nessas coisas
a ir vê-las". Outras, em maior número, eram engraçadas e ridicularizavam
os acontecimentos, como aquela em que, sob o desenho de um pequena mesa
de três pés, o caricaturista escreveu: "Jovem mesa, de exterior simpático,
fala várias línguas e conhece um pouco de aritmética e muitas histórias,
pede um lugar de intendente de finanças". Ou como aquela que ilustra
uma sala onde o patrão adverte o mordomo dizendo que a mesa "escreveu
que Baptiste é um maroto e que bebe meu vinho".
Tal era o clima na Europa sobre as mesas girantes: predominava o sentido
de diversão.
Muitos brincavam com as mesas, sem qualquer preocupação com o que tais
fatos poderiam ocasionar ou procuravam explicá-los das mais diversas
maneiras, sem estudá-los devidamente. Havia, também, os que se negavam
a presenciar o fenômeno e, numa atitude anticientífica, afirmavam que
tais coisas eram impossíveis de acontecer, tachando de charlatões ou
tolos aqueles que os aceitavam por terem visto e conversado com as mesas.
Felizmente, muitos foram os que buscaram estudar o palpitante assunto,
para opinarem sobre sua veracidade e suas causas.
Do livro: Tire suas dúvidas - Grandes Temas Espíritas
Autor: Homero Moraes Barros
Editora Didier.