Qualquer obra educativa que vise instruir sobre trabalhos
práticos da Doutrina Espírita deve ter por base, em primeiro lugar,
a mais perfeita e justa compreensão das finalidades doutrinárias; sem
que, rigorosamente, parta de uma primícia clara e segura, nenhum esforço
nesse sentido levará a bons resultados, nem mesmo será um trabalho criterioso
e lógico.
Doutra parte essas finalidades, por serem várias, devem ser divididas
em principais e secundárias, porque assim se poderá pôr em evidência
aquilo que tem mais importância e relegar a segundo plano tudo quanto
não seja fundamental, essencial.
Nos três diferentes aspectos que o Espiritismo apresenta, a finalidade
principal, sem a menor dúvida, está contida no aspecto religioso; é
aquela que remonta, no curso do tempo, ao Paracleto prometido pelo Cristo
em sua última encarnação, na Palestina, quando disse que não nos deixaria
órfãos; que mais tarde nos enviaria o Espírito da Verdade para ensinar
as coisas que ele próprio - o Cristo - não poderia, naquela ocasião
revelar, considerando o atraso evolutivo da humanidade; e, também,quando
noutro ponto, disse que conheceríamos a Verdade e que esta nos tornaria
livres.
Ora, essa promessa de ensino de futuras verdades está sendo realizada
pelo Espiritismo que é, por isso mesmo, considerado o Cristianismo redivivo;
o Espiritismo que, de certa forma e, pelo menos nas mentes de hoje,
ressuscitou o Jesus verdadeiro, dando nova vida e significação aos seus
ensinamentos redentores.
Portanto, se ele é a promessa do Paracleto em pleno curso e se essa
promessa se refere, principalmente, ao conhecimento de verdades espirituais
redentoras, é evidente que sua finalidade principal é esclarecer e espiritualizar
seus adeptos, evangelizando-os, porque este é o único meio de se libertarem
das esferas da vida espiritual inferior, da escravidão do pecado e do
erro.
Mas, que significa espiritualização, evangelização?
Significará, porventura, cada um viver normalmente sua vida, gozando
dos bens da saúde, das comodidades, das honrarias e posições que esta
vida lhes proporciona?
Absolutamente não; muito ao contrário, espiritualização é desprendimento
do mundo e de seus atrativos e fascinações. Mesmo quando não se o abandone
e despreze, pois que nele vivemos e dele necessitamos para as realizações
evolutivas, todavia não o devemos considerar como um fim mas, simplesmente,
como um meio de atingirmos pontos mais altos na escalada da verdade
espiritual.
Portanto, espiritualização é renúncia, sacrifício, devotamento ao próximo,
bondade e humildade; é conquista de virtudes morais e sua exemplificação
no ideal de servir e não o usufruto de bens materiais perecíveis.
Por isso que o Divino Mestre deixou esta advertência profunda: "Buscai
em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça e tudo o mais vos será
dado por acréscimo".
Buscar o Reino de Deus é subir na espiritualização de si mesmo, é conquistar
as virtudes cristãs que o Divino Mestre exemplificou com a sua própria
vida, comprovando com seus atos as verdades que ensinava. Portanto,
se o Espiritismo é a atualização dessas verdades, se é o Paracleto prometido
e já chegado, sua finalidade não é somente o intercâmbio mediúnico entre
vivos e mortos; não é assistência material que se presta caridosamente
aos necessitados; não é a cura de moléstias sempre úteis à purificação
de corpo e espírito; nem tampouco a fenomenologia ostentada pelas sessões
de efeitos físicos, nem a maioria dos atos e práticas realizados diariamente
por toda parte nos agrupamentos espíritas mas, sobretudo, a espiritualização,
repetimos, a evangelização dos adeptos; não os os conhecimentos do campo
intelectual que muitas vezes levam à egolatria, mas os esforços humildes
e silenciosos da reforma íntima, que exclusivamente se operam no campo
da vida moral.
Por isso é que o insigne Codificador Kardec asseverou de forma incisiva
e inspirada - "que se conhece o verdadeiro espírita pela transformação
moral pela qual ele passa"; o homem velho, do passado, cheio de vícios,
defeitos, paixões e impulsos animalizados, transmutando-se no homem
novo, moralmente reformado, voltado agora para a vida virtuosa, preocupado
com a conduta e as realizações próprias desse campo; o homem do mundo
tornado, por esforço próprio, discípulo do Cristo, propagador consciente
e corajoso dos seus ensinamentos redentores. Sim, porque quem exemplifica,
propaga.
Assim, pois, resumindo e repetindo, diremos que a finalidade principal
do Espiritismo é a evangelização e o esclarecimento das almas, e que
todas as demais modalidades ou aspectos do problema são secundários
ou decorrentes.
Qualquer programa, portanto, a se organizar sobre trabalhos práticos
deve ter em vista, rigorosamente, esta conclusão.
Dispensável será, ainda em tempo, dizer que como o Consolador que também
é, o Espiritismo tem imensa tarefa a realizar no campo da caridade evangélica
sendo, mesmo, um de seus mais expressivos lemas este de "fora da caridade
não há salvação". Este lema é profundamente verdadeiro, porque todo
homem evangelizado tem a caridade como um impulso natural e espontâneo
do seu coração; entretanto, é também certo e evidente que a prática
da caridade não resolve o problema da redenção humana (que tem muitos
outros aspectos). Esta é a razão pela qual dissemos que o exercício
da caridade material é finalidade secundária, decorrente da finalidade
principal da Doutrina Espírita.